ARTES VISUAIS - ARTE ROMÂNTICA - A LIÇÃO DAS TREVAS
Prof. Jorge Coli
Os românticos foram direto ao cerne. Deram-nos a experiência das trevas, do sem destino, do sem sinal. Mostraram-nos que todos os sinais são falsos, não em nome de um sentido superior, mas porque não há sentidos. Lançaram-nos na angústia do mistério, onde certas vozes falam mais sabiamente que outras: as da loucura, as da criança, as da mulher, as do povo, as do demônio, todos esses seres que não foram iluminados pela razão, mas que sabem exprimir as falas das trevas.
O incompreensível é absurdo, dirão as análises racionais. Que mecanismos psicológicos, que situações sociais, históricas, econômicas, políticas dão conta de tais quimeras? A atitude romântica justamente, por sua vez, denuncia: eles não dão conta. E, ao afastamento determinado pela razão, faz emergir, torna visível, palpável, presente, a espessura do desconhecido, a experiência do terrível, através dos choques, das comoções, dos arrepios.
Os românticos, é bem claro, não inventaram o irracional, nem foram verdadeiramente seus adeptos. Apontaram dis¬tintamente para o irracionalismo da racionalidade que, tantas vezes, tomada de uma embriaguez triunfante, enlouquece. Muitos e muitos foram, na sua história, os momentos em que a ciência mostrou-se enlouquecida, em pecado de orgulho, em excessos trazidos pelo rigor de um raciocínio que se basta a si próprio, e que incide, universal e autoritário, em conseqüências desastrosas, sobre o mundo. A hybris da razão faz aflorar o germe irracional ali escondido.
Os românticos sabiam que só a razão criou a irracionalidade, traçando uma fronteira. Eles sabiam que o irracional não se identifica simplesmente com o que não é racional. Mostraram o quanto havia de obscurantista nas certezas e nas verdades. Aprenderam, e ensinaram, a lidar com o incerto, com o duvidoso, de que o mundo é feito. Revelaram a solidão e o abandono, de que os homens são feitos. Praticaram uma sensibilidade inconformada, em desacordo com as regras, rebelde diante das harmonias que se dispunham como eternas e reais, e que eles sabiam falsas. Centraram essas revoltas no indivíduo, pois toda forma de conforto solidário e coletivo instaura a força das convicções incontestes. Extremaram, certo, as convicções pessoais - mas só quando elas determinavam conflitos e contradições. Foram cavaleiros solitários, pois não acreditavam na universalidade das escolhas.
As obras de arte do assim chamado “período romântico” guiarão este curso. Mas, além delas, o que veio antes (as dimensões do barroco, os desesperos do maneirismo, a nostalgia cavaleiresca do gótico internacional), e o que veio depois, até os nossos dias, serão exploradas, na busca de compreender as permanências da postura romântica para além das cronologias.
De 03/08/2010 a 07/12/2010
3ªs. feiras das 16h30 às 18h30
R$ 290,00 por mês
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